Edições esgotadas
A dimensão humana do humor
SERGIO
ALEJANDRO MÁS nasceu em Córdoba, Argentina, em 1972. Desde cedo
enveredou pelo humor, por meio de cartuns, charges e histórias em
quadrinhos. Com 14 anos de idade
expôs seus quadrinhos na 6ª Bienal Argentina del Humor y la Historieta,
em Córdoba; em 1987 participou do 2º Salão de Humor e Historietas de
Santa Fé, também na Argentina. Em
seu país, publicou em diversos jornais, revistas e livros, a exemplo das
revistas Hortensia Nueva Generación, Hola Tio, Umbrales,
Aqui Vivimos, La Luciernaga, Papeles de Córdoba.
No Brasil, ele começa a ser descoberto pelos leitores, que o acompanham
nas publicações independentes. São justamente os fanzines que têm
promovido um promissor intercâmbio entre os cartunistas dos dois países,
com destaque para PQP,
de Belém e Top! Top!, de João Pessoa. Sergio tem também uma
importante inserção nas revistas Tmeo e El Batracio Amarillo,
da Espanha. Além
de ter participado e sido agraciado com menções honrosas e premiações
em vários salões de humor em todo o mundo - Primeiro Concurso
Internacional de Humor Político em Cuba, 1993; Terceiro lugar na
categoria Tira no I Salão de Humor do Mercosul (1997, Santa Maria, RS),
Menção Honrosa na I Mostra Maranhense de Humor, no Segundo Salão
Nacional sobre a Fiscalização de Gastos Públicos (Brasília, 2000), em
Taejon, Coréia, em 1997 e 1998; participação no Salão de Piracicaba,
Imprensa (Brasil), Knokke-Heinst, Casino Beringen (Bélgica),
Saint-Just-Le-Martel (França), Iugoslávia, Croácia, Taiwan, Itália,
Alemanha - publicou o livro de cartuns Futbol de Más, em 1998, a
revista de quadrinhos El Rocha, em 2001 e participou do livro 2001
- Odisséia de Humor, com 20 cartunistas brasileiros. A
obra de Sergio Más expressa uma sutileza e senso crítico que não cede
às fórmulas fáceis do humor panfletário. Seja no cartum, na charge ou
nas histórias em quadrinhos, Sergio busca exatamente a dimensão humana
em seus desenhos e situações, gerando uma cumplicidade silenciosa com o
leitor. O
trabalho de Sergio percorre o mesmo caminho dos grandes mestres, dos quais
ele se diz admirador, como o argentino Broccoli, o francês Sempé e o
romeno Steimberg. E ainda Reiser, Lauzier, Angeli e Laerte, Daniel Clowes,
Colin, Breccia, Hugo Prat, Moebius, Shimamoto e tantos outros artistas de
humor gráfico e HQ de aventuras que de algum modo lhe deram elementos
para a construção de seu estilo peculiar. Hm.
O
humor sem concessão de Bretécher Claire
Bretécher é uma das autoras mais consagradas das histórias em
quadrinhos francesas. Já no início dos anos 1960 participou da renomada
revista Tintin, onde publicou uma série de gags. Também esteve presente
na revista Spirou, entre 1967 e 1971, criando as séries Gnan-Gnan e
Naufragés (esta em companhia de Raoul Cauvin). Em 1969, encontramos
igualmente Bretécher nas edições Dargaud. Na revista Pilote, ela
apresenta a personagem Cellulite. Estes eram nada menos que os grandes
carros-chefes das revistas ilustradas para a juventude naquele período. Mas
o salto determinante em sua carreira se deu mesmo em 1972, quando, em
associação com Marcel Gotlib e Nikita Mandryka, cria a editora
independente Éditions du Fromage. Logo
eles lançam a célebre revista Écho des Savanes, cuja concepção se
define pela liberdade de expressão, onde cada um poderia se exprimir a
sua maneira. As histórias de Bretécher se fazem, então, mais ácidas,
antecipando em alguns meses a criação de seus impagáveis Les Frustres
(Os Frustrados). Écho des Savanes teve inicialmente uma circulação
marginal, mas alcançou um grande sucesso. Em
1973 ela decide trabalhar na grande imprensa. Dentre outros jornais e
revistas, desenha uma prancha semanal com Les Frustres para o Nouvel
Observateur - importante
revista semanal de esquerda da época. É também nesse período
que decide se lançar na aventura da auto-edição, cujo primeiro número
de Les Frustrés sai em 1975. Dona de um traço aparentemente simples, os quadrinhos de Bretécher são, na verdade, um retrato caricatural da sociedade burguesa contemporânea. Seu desenho nervoso e expressivo corresponde perfeitamente a sua proposta de não fazer concessão aos valores estabelecidos, sobretudo quando mira as idiossincrasias das personalidades ricas, os pseudo-intelectuais de esquerda, os aficionados por psicanálise e os esnobes. De mesmo modo, aborda com ironia a militância feminista e os comportamentos familiares inovadores. No cenário dos quadrinhos críticos e reflexivos, o trabalho de Claire Bretécher se impõe como um dos mais importantes do humor com expressão sociológica, no mesmo domínio da obra de Quino e Henfil. Além de Les Frustres, Bretécher explora uma variada gama de personagens e situações fazendo um humor corrosivo sobre os novos comportamentos e novo contrato social. Com o álbum As Mães, ela enfoca a problemática da maternidade nas mulheres economicamente ativas. Em meados da década de 1980 ela cria Agrippine, retrato da adolescência de classe média e intelectual. Com Agrippine, Bretécher incorpora a linguagem coloquial e cheia de gírias da juventude, dando um tom mais leve e jovial as suas histórias. Praticamente inédita no Brasil, a obra de Claire Bretécher começa a ser difundida entre nós por intermédio da editora Marca de Fantasia, que se firma como um canal para os novos quadrinhos brasileiros e o melhor dos quadrinhos e cartuns de outros países. Com Os Frustrados, o trabalho de Bretécher volta a sua origem, não só pela descoberta para nós de uma de suas mais marcantes criações como pelo modo de produção e circulação inicial, ou seja, o meio independente, tão caro à autora. Hm
A
série O mundo dos zines, de Eduardo Manzano, quando começou a ser
publicada em vários fanzines, logo chamou a atenção. Por vários
motivos, mas, é lógico, principalmente por usar o próprio mundo dos
fanzines como tema. Dentro da série, Manzano desenvolveu três subséries: A primeira, retratando editores e colaboradores de fanzines; a segunda, tendo como tema o próprio trabalho de Manzano em seu estúdio; e a terceira, sobre problemas que ocorrem no meio alternativo. Para
as duas primeiras subséries a inspiração direta é o trabalho de Angeli,
mas com características próprias. Em Manzano em estúdio, há a
lembrança de Angeli em crise, uma subsérie de Angeli dentro de Chiclete
com Banana. Mas as piadas em si são bem distintas. Em outra subsérie,
Angeli ironiza figuras estranhas de seu meio, e aí há uma semelhança
maior com a principal subsérie de O mundo dos zines, que, aliás,
foi o tema inicial da série. Assim como Angeli, Manzano divide a tira em
três quadros independentes uns dos outros. Em cada quadro coloca um
personagem com um texto explicando quem ele é, e, não raramente, um
comentário do próprio personagem. Mas as diferenças são bem claras.
Angeli cria personagens fictícios e os ridiculariza; Manzano retrata
figuras reais do meio independente e os homenageia. Este é o ponto
principal da série, os participantes do mundo real dos zines se
encontrarem em O mundo dos zines. E há aí um aspecto curioso no
qual Manzano se sai bem. Para retratar alguém, é preciso conhece-lo.
Apesar do contato entre os participantes do meio alternativo ser feito
principalmente pelo correio, a presença constante em eventos de
quadrinhos, ou mesmo especificamente de fanzines, tem permitido que vários
desses participantes se conheçam pessoalmente, o que é um ponto
importante para uma melhor apreciação das tiras. Na
terceira subsérie, ao tratar das mazelas do mundo dos zines, Manzano também
acertou. Ao falar de pessoas que tentam se aproveitar da boa vontade dos
editores para obter material de graça, ou que promovem a discórdia no
meio, Manzano não cita nomes, mas usa personagens fictícios para
representá-los. Com isso, trata de assuntos pertinentes sem criar polêmicas
inúteis. A
leitura de O mundo dos zines, sem dúvida, é um meio de conhecer
melhor este meio independente, encontrar velhos amigos e conhecer novas
pessoas, como no mundo dos zines. Edgard Guimarães
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